Cioga do Campo - Terra Sem Lei
PARTE I - A Conspiração do Cifrão
Escondida entre montes e vales, disfarçada de aldeia rural que não figura no mapa, a pequena povoação chamada Cioga do Campo é interessante o suficiente para me forçar a contar o que por lá se passou.
Esta enigmática povoação foi estrategicamente escolhida pela sua insignificância e especial descrição. Aparentemente inalterada com o passar dos tempos, esconde nas suas profundezas a mais tecnologicamente avançada organização mundial, sede de uma conspiração global que dali é manobrada e coordenada. Controlam-se satélites, exércitos, políticas económicas, propagandas e tractores a gasóleo com um objectivo secreto apenas conhecido pelos poucos muito poderosos do mundo.
Segredo bem guardado até das polícias secretas mais modestas, esta organização usa os recursos do planeta em proveito de alguns, opera autonomamente e sem lei regente a não ser a sua, o lucro e a manipulação dos povos. Tendo levantado algumas suspeitas no início dos anos 80, todas as investigações foram misteriosamente abafadas por ordens superiores que ninguém se atreveu a questionar. Naquela zona, a fonte de radiação é tal maneira forte que os telemóveis comuns não funcionam bem, a internet apenas funciona ao fim de semana, a electricidade tem uma potência variável e até o fornecimento de água é independente da restante região.
Uma estranha actividade aeronáutica, pára-quedas largados a meio da noite, carros de luxo e de grande potência que desaparecem em celeiros centenários, fontes de água abundantes e geladas que de um momento para o outro começam a ferver, uma fertilidade extrema da terra, empresas multinacionais que experimentam formas de agricultura vanguardistas e secretas, a abundância de antenas parabólicas gigantes, um pioneirismo em aspecto menos comuns da sociedade e tantos outros factores, acabaram por não conseguir esconder que Cioga do Campo é o ninho da mais terrível conspiração global alguma vez orquestrada.
Mapa da Zona - Triângulo da Cioga
Ançã
- Pedreiras - armazéns radioactivos e atómicos protegidos por metros de pedra densa.
- Fonte - abundante e inesgotável fonte de água subterrânea que arrefece os reactores
- Proximidade da auto-estrada para servir transportes urgentes e secretos a qualquer horário e com total descrição.
S. Facundo
- Centro de Segurança - controla os principais acessos à Zona Secreta da Cioga (ZSC) e monitoriza todo o vale Mondego.
S. João do Campo
- Centro de Limpeza de todos os complexos da Organização
S. Silvestre
- Perímetro residencial dos quadros médios da organização
Zouparria
- Zona de controlo remoto de satélites - zona alta
S. Marcos
- Palácio - Centro de coordenação e decisão estratégica de todo projecto
Cioga do Campo
- Laboratório, centro informático central estratégico coordenador dos reactores, centro de coordenação de fusão nuclear e dos satélites em Órbita.
Historial Intermitente
Após a crise energética mundial, alguns senhores do mundo empenharam-se em juntar os mais poderosos e detentores de recursos para iniciar o processo do controlo global do planeta. No final da década de 70 os detentores das maiores fortunas, donos de bancos, países e continentes, monopolizadores dos recursos energéticos e dos meios de produção juntaram-se com o objectivo de controlar toda a população mundial e escraviza-la através dos meios de comunicação, da tecnologia e dos alimentos. Com os governos fantoches e promoverem a cooperação e a integrarem competências políticas e económicas, a previsão do fim da guerra fria e o apaziguamento da oposição e consciência popular, esta organização, desconhecida oficialmente e sem lei para travar os seus objectivos, começa por escolher o local mais insuspeito que uma ilha no pacífico, uma estação petrolífera no mar do norte ou uma catedral de Roma: Cioga do Campo.
Situação Geográfica - Localizada em pleno vale Mondego, Cioga do Campo foi a mais insignificante localidade do mais insignificante país do mais insignificante continente do mais insignificante planeta, da mais insignificante galáxia, do mais insignificante Universo. A proximidade com enormes nascentes de água subterrânea, pedreiras gigantescas (estranhamente abandonadas), um vale fértil para agricultura experimental (onde empresas multinacionais experimentaram o cultivo de transgénicos e o uso de pesticidas quase letais), a proximidade do mar e de grandes vias fluviais, uma gastronomia rica com leitão, lampreia, chanfana, bolo de Ançã, pastéis de tentugal e cultivo vinícola (espumante tinto principalmente) de excepção, uma Universidade famosa para encobrir e fornecer discretamente tecnologia e componentes raros, uma região abandonada de progresso e sem futuro aparente, formam as principais razões para a implantação no início dos anos 80 da organização nesta região.
Após a criação de infra-estruturas completamente autónomas do mundo exterior tais como a água e electricidade fornecida autonomamente, sistemas de rega avançados, construção de um mundo subterrâneo que unia os vários sectores do núcleo central da organização e dos acessos aos locais principais, etc. os primeiros projectos desenvolvidos foram laboratórios que produziam todos os materiais necessários para a transformação de drogas importadas do Oriente (ópio) e América (cocaína), uma dos principais fontes de receitas da organização. O resultado das experiências estavam projectados para ser experimentados nas principais cidades do país, mas uma fuga de materiais através da corrupção entre a segurança de S. Facundo e o pessoal da limpeza de S. João do Campo causou uma das maiores calamidades sociais alguma vez sentida em Portugal. Uma aldeia inteira chamada São João do Campo, quase sem excepção, ficou viciada em drogas duras. A limpeza das instalações passou por maus bocados até que novas drogas foram criadas para controlar a fraude e o suborno foi usado nos funcionários que entretanto deixaram de obter salários já que estavam controlados pelas várias drogas fornecidas à população através da água e produtos alimentares modificados geneticamente. Com o laboratório a dar frutos e os principais problemas de recursos humanos resolvidos, o centro de fusão nuclear e reactor adjacente começaram a ser construídos em finais dos anos 80 entre as antigas pedreiras (entretanto encerradas por ordens superiores) e a fonte de Ançã. Esta fonte comunica com um rio subterrâneo cujo lençol de água expele milhares de m3 por segundo e é ideal para arrefecer o gigantesco reactor.
Fortalecidas as políticas da C.E.E., afasta-se grande parte da população do meio rural e das culturas autóctones permitindo uma maior margem de manobra à organização. O frio mesclado de continental (neve nas Serras da Lousã e Estrela) e húmido dos ventos e oceano Atlantico da costa entre Figueira da Foz e Mira ajudaram a seleccionar a população restante após a grande parte dos recentes habitantes obterem febres reumáticas e terem de ir morar para o sul. A compra massiva de terrenos a preços baixos passou despercebida por ter sido efectuada através dos poderes locais de uma forma extremamente subtil e a rápida subida dos preços para números astronómicos em meados dos anos 90 ajudaram a dificultar ainda mais o acesso à zona. É também por esta altura que algumas empresas locais de construção e cimenteiras vizinhas começam a florescer devido ao fornecimento de materiais para toda a construção do complexo secreto. Com a era espacial aparentemente esmorecida pela desilusão da ida à lua, satélites de comunicação começam a ser lançados diariamente. A partir da tecnologia mais avançada, enormes quantidades de informação pode ser lançada para todo o mundo à velocidade da luz. As notícias são ali fabricadas, os governos decididos, as façanhas premiadas.
A corrupção, o crime organizado e o enriquecimento rápido evitaram com que a informação se espalhasse e até hoje os tentáculos da Cioga continuam a crescer.
Apesar da invisível repressão que se sente no ar e notoriamente se corta à faca, tentámos conviver com diferentes camadas da população que reside no local. Há vários tipos de habitantes nas redondezas. Muitos poucos, sobretudo os mais idosos, residem no local muito antes da mudança radical que os anos 80 fizeram sentir. Mais abertos ao exterior e sem ameaças directas da organização secreta, estes contam com a clareza que a idade permite e não racionalizam como tudo mudou em tão pouco tempo, como a dependência controlou toda a população e como de repente toda a zona perdeu a identidade que a manteve unida durante séculos. Praticamente toda a restante população se tornou dependente da organização quase todos por serviços indirectos, já que ela se orgulha de continuar desconhecida do comum dos mortais. No entanto as necessidades logísticas de tal empresa necessitaram dos préstimos de quase toda a camada activa da população local. Já os reformados não precisam daquilo para nada…
PARTE II - A Constipação do Leitão
Aurélio Vasilhame estava em apuros. A mais improvável equivoco tinha acabado de lhe acontecer e ele não queria acreditar no absurdo do momento.
Aurélio era conhecido por Vasilhame por cedo ter começado a trabalhar no café do pai, um dos mais mal frequentados da aldeia. Talvez por isso não tocava em álcool, só bebia água, leite e groselha, adorava groselha. Tinha também uma outra paixão, a música. Começara por dançar no rancho local mas o seu olhar esbarrava sempre nos instrumentos. Começou por tocar caixa, depois cavaquinho, depois acordeão, violino e guitarra até que se chateou com o padre que ensaiava o grupo etnográfico e folclórico. Saiu da porta do rancho e entrou na da Banda Filarmónica. Começou pela caixa e passou para o clarinete, saxofone barítono, trompete e trompa. Fazia 3 anos que apenas tocava trompa e estava maravilhado. Também estava maravilhado com a Vanda, filha do Ezequiel que fugiu para os Estados Unidos para não ir para o ultramar e voltou cheio de dólares dos anos 90. Os tais que eram fáceis. Trouxe também a Priscila como esposa e a Vanda no colo.
Aurélio adorava a Vanda, mas o que o preocupava era a banda filarmónica. Três anos depois de ter entrado já estava saturado. Os temas eram sempre os mesmos, queria novas partituras, novos músicos com quem tocar, outras coisas que não marchas militares com arranjos do Ti Zé Cardetas de 1965. Na noite anterior, no largo da igreja fumando um cigarro depois do ensaio, parco em palavras como é seu costume confessou ao amigo no seu sotaque local que aumenta os Às não distingue Bs dos Vs; “Estou farto da banda, é sempre a mesma coisa, apetece-me coisas novas”. Ora o amigo pensou; “A Vanda só tem 23 anos, este gajo até é porreiro mas às tantas é putófilo”. Luís, mais conhecido por Tchétcho na manhã seguinte ainda tentou mas não conseguiu evitar comentar à Aldina, sua namorada de longa data, o que o Vasilhame tinha dito na noite anterior e obviamente a coisa chegou aos ouvidos da Vanda mais depressa que um e-mail do Sapo. Mulher de armas, habituada aos filmes do Chuck Norris, Vanda defronta Aurélio dez segundos depois de saber, por volta da hora do almoço.
Aurélio está sentado, tem um prato de leitão à frente. Vanda entra no Café/Restaurante O Catito, e diz em voz alta: “Ó picha mole, andas a dizer aos teus amigos que estou gasta e queres pássara nova, ó meu filho da puta?!” Aurélio sentado, com o garfo enfiado na alface está perplexo com o ridículo que aquele engano lhe vai afligir apenas pelo hábito de não falar o perfeito Português de Coimbra, ali tão perto. O facto de não responder apenas lhe dificulta a defesa mas está consciente que se diz o que pensa da banda fica imediatamente sem a trompa em que toca. Por outro lado vai ficar sem a Vanda que tanto adora mesmo que um anjo cague no meio da praça. Por outro lado está fardado para a actuação em Trouxemil às 16h no Lar de Nossa Srª das Réguas. Um gajo fardado não renega a banda. Foda-se! pensa ele.
A sua mente entra em colapso e a laranja, a batata, a alface e o leitão no seu prato, sentem-se vingados por quase serem comidos vivos. Tal como no teatro, a cortina fecha e as luzes caem do tecto. Aurélio não sabe como sair desta.
Na mesa ao lado está o Dr. Edmundo, Juiz Embargador quase sempre embriagado. Quase que não toca nos alcoolismos antes das 11 e meia da manhã. Percebe que algo interessante vai acontecer e interrompe as iscas. Pergunta a si próprio se existe um objecto na lei para o caso e enche o copo de tinto local.
PARTE III - O Requeijão Carrascão
Humberto Felisberto cortava dois pedaços de Brie e recolhia metade de um de patê de Pato que no momento seguinte barrava no pão. Pensava na guerra de outrora, aquela que transformara seu pai num mártir e o seu presente em algo mais fácil. Vivia na parte norte da Gândara e acreditava piamente que Angola ainda era Portugal. E o Brasil também. Moçambique não percebia onde era por isso não fazia mal. No entanto era internamente levado a lutar pela Ecologia e pela Paz. Aos 13 anos conhecera Tatiana e a sua vida mudou, ou pelo menos a sua conduta social mudou. De um momento para o outro o 25 de Abril e o 1º de Maio foram passados na rua, de punho em riste, bandeira na mão e olho atento na sua Tatiana. Apenas era obrigado a mentir no Natal e na Páscoa, quando dizia que ia passar fora para ir à missa do galo ou para receber os gaiteiros e o padre que lhe dava a cruz a beijar, sendo por sua vez obrigado a fugir de casa para ir ao Avante em Setembro, altura do aniversário da tia Emília.
Não tinha conseguido decidir o que fazer com a sua vida até aos 45 por isso enveredou pela pelintragem, tornou-se Jovem-Presidente da Junta pelo Partido dos Cavalos Verdes do Mondego, começou a dirigir o Gandarense F. C. e desatou à procura de moça para casar já que a Tatiana tinha descoberto tudo e o trocara por um sindicalista gordo e barbudo. O facto de ser da Gandara não lhe tiraram votos e tornou-se Presidente da Junta da Cioga do Campo. Os Cioguenses sempre gostaram mais das pessoas de fora do que das locais e votaram em massa em Felisberto.
Tinha acabado de comprar um Mercedes importado da Bélgica. O carro estava em péssimo estado mas tinha muito bom aspecto. Um bocado como o dono. Contavam as aparências, os olhares invejosos dos agricultores analfabetos e parvos o suficiente para terem votado nele. Estava particularmente bem disposto, tinha posto o lenço amarelo que mais adorava e estava com o fato que comprara em Lisboa, mesmo no centro. Os sapatos eram da sapataria Prestige porque conhecia a empregada da limpeza que lhe trazia sapatos caros com pequenos defeitos por quantias módicas. Tinha ganho com slogans que ele próprio inventou e considerava-se um ás do marketing político. Os slogans tinham sido:
- Desenvolver pelo Progresso do Futuro!
- Paixão e Dedicação contra a Corrupção de S. João (do Campo).
A vida sorria, afinal para quê pensar no passado cinzento que a Tatiana lhe infligira, a dificuldade de andar a tentar engatar miúdas de bigode, a chatice de se fingir jovem quando o interior está velho e cansado. Não havia nada a fazer. O melhor era comprar novos adereços que a televisão lhe vendia e fazer disso felicidade. Orgulhava-se do seu Mercedes, mesmo que o banco onde sentava lhe aleijasse o glúteo esquerdo. Afinal se ninguém desse por isso não o poderia afectar. Que se lixasse a dor que tanto o atormentava, as pessoas iam lá pensar nisso! Andar coxo até lhe dava um certo charme.
O dia seguinte era importante para a re-eleição do próximo ano. Iam inaugurar um escorrega de madeira na escolar e toda gente sabe que os professores, principalmente os mais novos, são todos verdes. O voto da professora Elídia estava certo, mas era preciso por os miúdos a convencer os pais. É que a re-eleição era importante, mas ainda mais era o sonho da sua vida: fundar o Sport Club Cioguense. Era esse o objectivo que o fazia levantar da cama bem cedo pela manhã.
Felizmente não estava só e tinha toda a solidariedade da autoridade local. Hernesto Prudêncio, chefe da esquadra local tinha todo o interesse em ter mais companhia para os copos de Domingo e toda a gente sabe que no campeonato distrital de Futebol se bebe mais do que na Queima das Fitas de Coimbra. Há também mais pancadaria que num jogo de hóquei no gelo e o Chefe Prudêncio, como era conhecido na terra, gostava mesmo era de confusão. Na juventude fora membro de um grupo anarquista e os velhos hábitos nunca se perdem.
Parte IV - “Fia-te na Virgem e não corras!”
O nevoeiro é comum no vale, quantas vezes os camponeses saiam para o campo com o sol já raiando mas ainda no breu das neblina matinal. Assim amanheceu Cioga do Campo nesse dia que se esperava grande, pelo menos para algumas personalidades da terra que acabámos de conhecer.
É também da sabedoria universal que os velhos dormem menos e que acordam mais cedo porque já não podem (nem se lembram de como era) usufruir das diversões nocturnas que embriagam os espírito e deleitam o corpo. Por vezes ainda antes da primeira fornada do padeiro estar no cesto já as três viúvas aqueciam o café. Por hábito só se encontravam depois do primeiro café da manhã e sentavam-se cá fora nas escadas da casa da curva onde iam rodando sentadas conforme o sol as ia perseguindo. Não diferenciavam muito em idade e todas as três já conheceram três padres na aldeia e só o primeiro por ter morrido ainda elas eram gaiatas, não tinha comido da mão delas. Este último era ainda mais dócil pois elas safaram-no na altura do PREC quando meia dúzia de bêbedos de S. João do Campo, numa fúria vermelha se lembraram de perseguir o pobre padreco na sua motorizada, talvez por não terem potência para perseguir o bufo da PIDE no seu Mercedes preto. Ainda assim elas safaram-no e os comunistas nunca mais se lembraram de o perseguir. A ressaca do comunismo fora pior que a de Água Pé.
A mais velha era Etelvina de segundo nome que o primeiro nem é preciso dizer qual é. Tinha nascido na Cioga em 1921, no quarto da casa dos pais sem parteira nem oxigénio. Diziam que mal nasceu foi ela que tratou da própria fralda pois a mãe não tinha tempo para esses pormenores. Toda a vida trabalhou no campo mas conseguiu aprender a ler com o irmão mais velho que de tão burro precisava que ela, analfabeta, lhe desse uma ajuda nos deveres da escola. Casou quando o pai lhe mandou e nem pestanejou quando lhe disseram que o marido morrera na defesa de Goa. Criou os filhos com a ajuda da Virgem e todos eles foram à sua vida, uns mais longe que os outros. Vale-lhe o telefone para ir sabendo deles e pergunta-se todos os dias o que será daquela casa que tanto lhe custou a construir quando finalmente deixar a morte entrar. Quanto tempo aqueles telhados se irão manter depois dela já não lhes poder valer. É que os telhados caem quando deixam de dar abrigo.
A do meio é a Florinda e a beleza da juventude ainda se adivinha no meio das gelhas e rugas da cara. Nasceu em 1925 e teve sorte na infância que por ali passou até que a casaram e foi para a Figueira da Foz onde aprendeu a fazer Pitau-Raia como ninguém. Tornou-se cozinheira até que lá foi um senhor a casa dizer o seu Gracindo tinha morrido valentemente nos campos de concentração Japoneses em Timor. Abalada com a notícia pois só passara dois anos casada antes dele ter sido mandado para lá longe, voltou para a Cioga para recuperar e percebeu que o cheiro do peixe a deixava angustiada. Pela Cioga foi ficando, cuidando das coisas mundanas e como na altura divórcio era ilegal e ao mesmo tempo um pecado, foi-se habituando às solidões da vida, valendo-lhe a amizade que fizera com as suas duas amigas.
A mais nova chama-se Perdição e é conhecida por nunca se queixar. Quando pariu não soltou um ai. Quando partiu uma perna ao cair de um tractor e o tractor lhe passou por cima apenas suspirou "como é que amanhã tempero o cabrito para o Domingo de Páscoa?”. Nascera em 1929 e fora filha única, coisa rara na altura. A principal razão para esse facto vinha do facto da sua mãe também ter ficado viúva muito nova. Tinha essa vantagem em relação às outras, ela já vinha de uma família de viúvas. Casou quando a mandaram e esteve para ir para o Brasil com o marido mas ficou para tratar da mãe. O marido voltou e arranjou trabalho em Lisboa o que lhe valeu duas visitas à cidade do Tejo. Mais tarde arranjou colocação em Cernache e acabou por morrer na construção da Ponte sobre o Mondego.
Os cães já ladram aos galos madrugadores e as três vão saindo de casa e sentando-se na curva junto à casa da Etelvina que por estas alturas do ano tem sombra até às 9 da manhã. Depois das saudações deixam-se ficar em silêncio durante um bocado, como se estivessem em conferência telepática ultra secreta, antes de passar à parte vocal que toda a gente pode ouvir. O sino dá as 7 da manhã e Florinda acerta o relógio cuja corda já não o mantém a par dos tempos.
Parte V - Comemorar é Recordar
Pelas 7 e cinco José Ruivo, recentemente elevado a Cabo no Posto da GNR da Cioga, passa no seu todo o terreno a toda a velocidade. Estava incumbido de verificar as placas que davam indicações para a comemoração do 40º aniversário do regresso da Companhia 1177 da Infantaria Bombista do Norte do Rio M'Pozo, na fronteira entre Angola e a Guiné-Bissau. Nunca se sabe quando os malucos dos veteranos se põe a colocar placas em cima dos sinais de STOP. Como as suas placas têm a forma de uma G3 em cima de uma Berlier e ocupam mais ao menos o tamanho de um sinal de trânsito, no ano anterior cerca de uma dezena de sentidos proibidos foram tapados, provocando o caos no trânsito local. Três mulas descarrilaram e quatro tractores capotaram matando uma junta de bois. José, ou Cabo Ruivo como recentemente se tornara reconhecido, estava preocupado com a fauna local e desde as 6 da manhã já tinha arrancado mais de metade das placas. O que ele não sabia é que estava a ser seguido pelo Carlos Correia, um dos principais organizadores. Correia regressara à Cioga, sua terra natal, após várias décadas de exílio em Corroios onde encontrara um trabalho no departamento da distribuição nos Correios. Pouco dado ao humor, tornava-se agressivo sempre que alguém lhe chamava Correia dos Correios de Corroios ou Correia da Distribuição. Era também conhecido pelo mau vinho, principalmente durante a manhã. Ao ver o Cabo Ruivo a parar junto ao cruzamento com a estrada da Geria, sair do todo-o-terreno, dirigir-se ao sinal triangular de perda de prioridade e começar a desapertar o arame em torno da G3 montada na Berlier perdeu as estribeiras e deixou a clandestinidade.
- Ó meu caralho, estás a tirar essa merda para quê? - atira certeiro o Correia;
- Tu não vês que não podes tapar os sinais de trânsito? Ainda matas outra junta de bois como no ano passado! - Responde o Ruivo surpreendido pelo furibundo Correia;
- Esse sinal está aí há mais de 20 anos, achas que até a mula mais cega não sabe que tem de dar prioridade? Aliás achas que alguém liga a isso?
- O Chefe Prudêncio disse-me ontem para verificar qualquer incidência na sinalética rodoviária na Freguesia e é o que eu estou a fazer. São ordens superiores. Se não gosta vá ao Posto e faça queixa. E bom dia. - Ruivo entra no todo-o-terreno e aproveita todo o binário do motor a diesel do velho UMM, recuperado com amor e carinho pelo Dionisio, o melhor mecânico da zona, agora com oficina em S. Facundo mas que no passado tinha feito parte da equipa de Rallies da SEAT, o que lhe valeu uns valentes passeios e umas grandes comezainas!
Para trás ficara o Correia da Distribuição, ainda meio roxo de raiva e só à espera que o Cabo Ruivo faça a curva para voltar a por a G3 montada na Berlier que indicava o local da Festa dos Veteranos Sobreviventes.
Parte VI - Entretanto no Catito.
O Sr. Comendador assistia com prazer à telenovela em 3 dimensões que se passava à sua frente. Olhou para a garrafa e ainda tinha mais de meia. Podia estar descansado pois a Emília que servia à mesa viria a cada 15 minutos para ver se precisava de algo, mesmo que uma bomba nuclear caísse em cima do bombo do seu namorado, Bráulio que tocava bombo na banda.
Vanda começara por atirar ao chão todo o pão existente na mesa. Cada um dos bicos, nome do pão mais branco que a farinha local podia produzir, fora atirado à tromba do pobre tocador de trompa. Depois foi o couvert e as batatas fritas. Seguiu-se a alface, a laranja e o leitão finalmente caiu no chão. Aurélio olhava para baixo esperando que a farda da Banda não ficasse com nódoas. A Vanda gritava insultos que nunca ninguém tinha ouvido: “Achas que as minhas mamas estão murchas, é? Queixas-te na rua mas em casa pedes para chuchar! Eu bem sei que a tua mãe não tinha leite para vocês todos meu monte de merda!” ou “Estás farto do que é bom, é o que é! Tens a pila mais curta que o meu Bobi e agora queres nhanhoca mais nova para sentir alguma coisa!” Bobi era o nome do seu pequeno cão rafeiro que lembrava em certos dias sob certa iluminação um poodle.
O Sr. Comendador começava a sentir a falta de Emília pois 17 minutos passaram e ela não tinha perguntado se ele precisava de algo. Normalmente ele não precisa mas agora queria mais tinto e ele sentia-se vilipendiado.
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